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Anthem: um ano após o hate manada

Fábio Pires Gavião em 15 de fevereiro de 2020

Há quase um ano, em 22 de fevereiro de 2019, a prestigiada produtora canadense Bioware lançava mundialmente o polêmico jogo Anthem. É bem verdade, o lançamento aconteceu em meio a um catastrófico problema técnico de servidores da Eletronic Arts – EA. Nas semanas anteriores ao lançamento oficial, o jogo havia recebido acessos antecipados para assinantes de serviços da EA, depois, para aqueles que haviam adquirido a versão completa, Legião da Alvorada. A dificuldade crônica de conexão e a estabilidade sofrível preparou o terreno para um dos cases mais evidentes de um fenômeno bastante contemporâneo da psicologia social no mundo das redes sociais, o que tenho chamado de hate manada.

A patologia do hate manada.

O vocábulo em inglês hate significa ódio. A derivação bastante usada nas redes sociais, haters, significa, portanto, odiadores. O termo manada que reivindico para descrever o fenômeno é oriundo do conceito da psicologia social comportamento de manada ou efeito manada. É quando os indivíduos tendem a seguir o comportamento da maioria, agindo de forma acrítica, irrefletida e até irracional. Popularmente e de maneira grosseira, o efeito manada é o famoso “Maria vai com as outras”.

Em alguns casos, o comportamento de manada, assim como entre os animais, pode ser positivo, quando atrelado ao instinto de sobrevivência. Imagine que você estivesse em um local público com muitas pessoas e, subitamente, elas começassem a correr e gritar, seria natural que você também saísse correndo, mesmo sem saber exatamente de que as pessoas estariam fugindo.

Entre os humanos, na sociedade complexa que vivemos, o comportamento de manada tem sido estudado em aspectos muito mais sérios e com consequências mais relevantes do que as que eu abordarei nesse texto, a exemplo do comportamento de manada no mercado financeiro e a criação das chamadas “bolhas especulativas”, quando a tomada de decisão dos agentes econômicos se dá sem bases racionais, isto é, sem informações concretas e análises sólidas, mas sim, com base apenas em reações emocionais diante da observação do comportamento coletivo.

Há hoje muita preocupação com a disseminação de posicionamentos políticos extremistas, o que tem levado ao crescimento do sucesso eleitoral de políticos ostensivamente vinculados a variantes de discursos de ódio, que se valem de modernas técnicas de propaganda, construindo, fundamentalmente nas redes sociais, um hate manada convertido em eleitorado protofascista, isto é, tendente ao desrespeito aos princípios democráticos e aos Direitos Humanos, resultando no crescimento da extrema-direita em diversos países.

Portanto, a patologia desse fenômeno se inscreve em seu potencial de manipulação emocional das massas, criando um objeto para o culto ao ódio, explorando esse obscuro prazer pelo menosprezo, pela detração, pela degeneração e até o limite da eliminação do objeto alvo do ódio.

 

Elementos do hate manada: o caso de Anthem.

Eu acredito que o elemento principal que desencadeou o patológico hate manada do qual Anthem foi alvo foi o problema crônico de servidores ocorrido em seu lançamento, mas outros elementos podem ser acrescidos para que ele tenha tomado a proporção que tomou. Eu passarei agora a elencar alguns deles.

Embora Anthem tenha sido produzido pela prestigiada Bioware, consagrada produtora da franquia Dragon Age e Mass Effect, ela foi adquirida em 2007 pela gigante distribuidora EA. Muito comum também no universo da mídia comercial e amadora de games, é a estigmatização das empresas. Embora todas as empresas sejam, por definição, associações de profissionais que visam lucratividade, e uma infinidade de jogos de diversas produtoras contenham formas de microtransações, a EA foi alvo em 2015 de uma campanha difamatória, e por que não, um hate manada, em função das microtransações no jogo Star Wars Basttlefront, da produtora DICE. De lá para cá, em meio a massa casual, a EA ficou estigmatizada como uma empresa mercenária. Fenômeno similar de estigmatização ocorreu com a francesa Ubisoft, em função da presença de bugs em seus lançamentos, muito embora esses estejam presentes na maioria dos jogos.

Evidentemente que é nosso interesse e até nosso dever como consumidores refrear abusos das empresas e inibir a prática do lançamento prematuro dos jogos, o que tem ocorrido com frequência. Entretanto, ao mesmo tempo, devemos estar aletas para o fato de que esses problemas têm sido infelizmente generalizados, e não específicos de uma ou outra empresa.

Ainda que a Bioware tivesse se manifestado sobre a inexistência de microtransações para além de itens cosméticos em Anthem, com base no estigma de “mercenária” da EA, foi disseminada uma série de fake news sobre a presença abusiva delas no jogo. O próprio fato de um jogo ser distribuído pela EA, já é por si só, na ótica das pessoas menos informadas, uma compra arriscada.

Outro elemento que contribuiu bastante para o hate manada foi o evidente downgrade que o jogo apresentou se comparado com o trailer da world premiere de Anthem na E3 de 2017. A apresentação desse trailer na Conferência do Microsoft talvez tenha sido o pior erro de EA com esse jogo, pois, ele apresenta uma experiência gráfica impressionante que gerou um hype estratosférico, e que depois, no lançamento, ao não entregar aquela mesma experiência, gerou uma proporcional abertura para críticas, e uma exploração gigantesca por parte dos clickbaits haters na internet em geral.

Apesar de não ter a qualidade gráfica apresentada naquele trailer de 2017, Anthem apresenta um dos mais belos gráficos da geração, em sua diversidade estética e verticalização dos cenários que possibilitam a dinâmica única do voo que é marca registrada desse jogo. Graficamente ele está em linha com os principais jogos AAA lançados nos últimos anos. O realismo das lanças é notório, no detalhamento dos diferentes materiais e texturas com as quais você pode customizar suas lanças.

Com relação ao gameplay em si, isto é, a experiência de jogabilidade, o controle da movimentação e combate das lanças, o jogo entregou algo mais próximo do apresentado lá em 2017. Mas é evidente que, diante da atmosfera avassaladora e delirante das críticas, as qualidades do jogo sucumbiram quase que completamente no haterismo que insistentemente criou, exagerou e enfatizou supostos defeitos graves no jogo. A mídia comercial e amadora atingiu níveis inacreditáveis e patéticos de hate manada. Até gente que eu considerava madura e equilibrada em suas manifestações deleitou-se no banquete ao ódio.

Era possível observar os reprodutores de clickbaits salivarem ao tecerem suas pretensas “críticas”, “análises”, “vale ou não apena” e “vereditos” ao abordarem Anthem. Para quem estava jogando, que era o meu caso, era notória a extrema superficialidade do contato que os “críticos” estavam tendo com o jogo. Com argumentação flagrantemente genérica e inconsistente, criticava-se absolutamente tudo do jogo. Os gráficos, os personagens, os diálogos, o conteúdo, os menus, os drops, os inimigos, as animações, em suma, tudo. A patologia atingiu níveis doentios e assustadores, tanto numericamente quanto qualitativamente.

Falava-se que o jogo estava “injogável”, sendo que só poderia dizer isso quem nem tinha entrado no jogo, pois, os problemas técnicos do lançamento só inviabilizaram completamente a jogatina do primeiro dia de acesso antecipado. Falava-se que a Bioware iria falir, sendo que mesmo com todo o hate manada, Anthem foi o jogo mais vendido em fevereiro de 2019, nos principais mercados. O efeito o haterismo só se fez sentir nos meses subsequentes. Com base em supostos depoimentos anônimos, acusava-se a Bioware de levar os funcionários a exaustão pelo nível de pressão para a produção do jogo. Os conteúdos de hate e fake news sobre o jogo viraram uma febre. Todos da “comunidade gamer” sentiam necessidade de se manifestar e tirar uma casquinha feito urubus em cima da carniça.

Eu e outros jogadores mais resistentes e portadores de anticorpos contra essas doenças de internet, e sobretudo, que estávamos jogando e se divertindo, não conseguíamos reconhecer que essa gente estava falando de Anthem. O que ficou muito claro foi que o efeito prático do hate manada contaminou boa parte da mídia comercial e amadora. Muita gente que não jogou, ou jogou muito pouco, criou a partir de Anthem, um discurso de ódio sobre um jogo imaginário para gerar visualizações.

Ainda hoje, quase um ano depois, há pessoas falando sobre esse jogo imaginário, que eles dizem que morreu, que foi esquecido e abandonado pela Bioware. A prova mais concreta de que falam de um jogo imaginário é que eles não jogam e falam para pessoas que não jogam. Pois, se jogassem, saberiam que o jogo consolidou uma boa comunidade e tem recebido eventos e melhorias ao longo de todos esses 12 meses.

 

Anthem resistiu e venceu o hate manada.

O comportamento da Bioware diante da histeria da mídia comercial e amadora foi a mais acertada. Ela parou de tentar responder a todas as críticas negativas e focou na comunicação direta com os jogadores via fórum na página oficial. Passou a noticiar de forma sucinta e objetiva os hotfixes e patches de atualizações especialmente via twitter. A doença foi tão grave que, até mesmo as manifestações de integrantes da Bioware poderiam ser alvo de distorções e servir para a produção de mais conteúdo clickbait.

Após 6 meses, em setembro de 2019, Anthem entrou no catálogo de jogos do EA Access. Outros jogos como FIFA, também tem ido para o catálogo de assinatura após 6 meses do lançamento. A entrada coincidiu com a chegada do primeiro grande evento em Anthem, o Cataclisma. Os novos jogadores e o retorno de muitos que haviam jogado apenas no lançamento ajudou a estabilizar uma boa comunidade nos servidores.

A maioria dos jogadores que gostaram do jogo e continuaram jogando estão hoje com as lanças no nível máximo, o que permite que eles joguem na dificuldade máxima, chamada de grão-mestre 3, ou GM3, para os íntimos. Dificilmente você entra em uma partida no GM3, seja no modo livre, seja para fazer um contrato ou fortaleza, e o servidor não está completo, isto é, você entra em uma partida aleatória e sempre encontra os outros 3 jogadores, já que o número máximo é 4. Isso mostra que o jogo real Anthem resistiu, está ativo, e a despeito das fake news sobre abandono, o jogo recebeu um novo evento em dezembro, o Margelo, programado para terminar em janeiro, mas foi estendido para fevereiro a pedido da comunidade ativa via fórum.

O que é mais comum quando converso com novos jogadores de Anthem é o espanto que eles têm ao descobrir que haviam sido enganados pela mídia comercial e amadora. Descobrem um jogo belíssimo, com gameplay sólida, original e divertida, sendo o jogo real um dos pontos altos da geração, produzido por uma das mais brilhantes produtoras de jogos presentes na indústria atual. Algo realmente muito distante do jogo imaginário, objeto de culto ao ódio, que ainda hoje os infectados pelo hate manada falam vez ou outra.

Há ainda a expectativa de uma grande atualização que reinvente o jogo de forma bastante drástica, mantendo a essência do gameplay que cativou tantos jogadores. Esse trabalho foi confirmado no blog oficial da Bioware, em 10 de fevereiro de 2020. Na mesma postagem, Casey Hudson, desenvolvedor-chefe de Anthem, confirmou que a equipe estará focada nessa reinvenção das missões e desafios do endgame, mas manterá a atualização dos conteúdos da versão atual, bem como anunciou o retorno do evento do Cataclisma para o próximo mês.

O caso de Anthem é um exemplo bastante eloquente dos problemas que temos de enfrentar com o uso da internet na sociedade contemporânea. Quando estamos falando do universo dos jogos eletrônicos, não estamos falando de algo que tenha real impacto na vida das pessoas. Mas não deixa de ser preocupante observar essa predisposição gratuita das pessoas para o ódio, esse prazer em odiar, em propagar e consumir discursos dessa natureza. É realmente estranho odiar um jogo. É um alerta de que algo não vai muito bem nessa dinâmica de comunicação e cultura na internet, inclusive na subcultura gamer.

Caso queriam jogar Anthem, segue minha gamertag na Xbox live: Gavian Gamer

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Fábio Pires Gavião

Professor de História. Jogo na plataforma Xbox e PC. Eventualmente escrevo sobre o que estou jogando. Exercito a crítica aos pretensos "críticos" de jogos. Em meus textos encontrarão a negação da mídia comercial e amadora. Um jogador que escreve para jogadores.
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